Passei minha infância inteira superestimando minha família: papai, irmãs e principalmente minha mãe. Perdi a conta das vezes que reafirmei com ela (e comigo mesma) o quanto foi importante que ela me castigasse fisicamente, porque isso fez de mim uma pessoa “melhor”. Aceitei por muitos anos, resignada e grata, sua áspera e ácida presença em minha vida, e por muito tempo ela foi o meu modelo de amor.
Tantos anos negando o óbvio, totalmente desnorteada num mar revolto de não sei bem o quê.
Minha mãe sofreu o indizível na infância, e passou adiante, inconsciente, adormecida na depressão.
Como o resto da família, ela tem o hábito de colecionar casos mal resolvidos, conservando os problemas com panos quentes, e exibindo-os com orgulho nos momentos mais inoportunos. E quando a coisa escapa ao controle, usa todo o tipo de coerção: chantagem, ironia, mentira, o que estiver à mão. Antigamente, usava um chinelo ressecado, um cinto, um pedaço de qualquer coisa, …o que estivesse à mão.
A bem dizer, nossa relação foi sempre altamente aditivada. Nunca nada fluía normalmente. Estávamos sempre tropeçando na sujeira que cultivávamos debaixo do tapete. Num desses tropeços, eu não fiz questão de ajudar ninguém a levantar, e voei, sem olhar pra trás.
Estava cansada demais pra representar. Saí de cena, sem deixar endereço ou telefone.
Agora estou aqui, colocando os tapetes ao sol, lavando o chão com suor e lágrima, secando as feridas.